30/07/2016

Matéria Especial (de César Leal): A Primeira Editora Brasileira de Quadrinhos ...


Em uma conversa com o Leo sobre editoras nacionais acabei me “designando” para escrever algo sobre aquela que teria sido a primeira editora de HQs no Brasil... De início, a empreitada parecia mais simples do que realmente se apresentou, afinal, quem publicou pela primeira vez quadrinhos em nosso país?

Não me parecia uma pergunta muito difícil de responder. Bastaria seguir a trilha da publicação mais antiga de uma HQ por aqui e pronto. A memória afetiva com relação à editora primária sempre me leva ao desbravador Adolfo Aizen, que trouxe para o país pela primeira vez o material da era de ouro das HQs que ditou as bases para o que conhecemos hoje como quadrinhos de aventura. Antes de fundar a Brasil América foi, pelos idos dos anos 30, através do Suplemento Juvenil, em parceria com o fundador e diretor do jornal A NAÇÃO, que pudemos ver, em primeira mão em terras tupiniquins, personagens que durante muito tempo foram “O” referencial de aventuras em quadrinhos: Tarzan, Príncipe Valente, Flash Gordon, Mandrake. Mas apesar de todo o brilhantismo de Aizen no comando do suplemento e da vindoura EBAL, é fato que já haviam quadrinhos anteriormente em nosso país.

Confira abaixo:

Dr. Semana criticando a falta da infância nas crianças do país – tão antigo e tão atual.

Muito antes, em 1905, houve uma empreitada até então inédita por aqui, que poderia levar a alguns pensarem ser a gênese das HQs em terras brasileiras, a revista: O "Tico-Tico". Fundada por Luiz Bartolomeu de Souza e Silva, responsável por uma das mais conceituadas e populares publicações da época: “ O Malho”, passou para a história ao publicar uma revista com vistas ao público infanto-juvenil... Se bem que, principalmente nos primeiros números, a revista tinha um material diversificado, muitas histórias nacionais baseadas em conceitos do que estava sendo produzido em terras europeias e que não eram exatamente títulos infantis, como Dr. Alpha, um desbravador espacial com aventuras muito interessantes e espelhadas no que se via em livros de Julio Verne, ou Max Muller, um aventureiro cujas histórias bebiam nas aventuras do estilo dos pulps, recheadas de mistério e misticismo, ou mesmo naquele que alguns assumem ser o primeiro super herói do mundo: O Príncipe Oscar. Bem, não vamos nos aprofundar no tema da criação do conceito super-herói para não nos distanciar do objetivo que é determinar a primeira editora de HQ no Brasil,  deixando o assunto de lado por enquanto (quem sabe em outro texto poderia discorrer sobre isso). O fato é que, posteriormente à essa fase inicial, a Tico-Tico foi sim uma revista mais priorizada para as crianças e jovens, seus textos, quadrinhos, pesquisas e direcionamento era de material infantil. Não que isso desmereceria a publicação, afinal, ela dominou as mentes infantis das crianças brasileiras por décadas, sempre com o apoio maior ou menor de pais e educadores que viam na revista não um mal à formação infantil, mas uma ferramenta na educação. Tendo sido citada até mesmo por Ruy Barbosa em algumas ocasiões. Uma publicação “alvissareira” como diziam os cidadãos da época... Mas nem assim a primeira publicação de quadrinhos no Brasil... Tive que fuçar ainda mais no passado para ter uma resposta à essa questão... Apesar de que, adianto, para se definir qual foi a primeira editora de HQ no Brasil vai se depender inteiramente dos conceitos de cada um que analisa a questão (eu sei... meio desapontador... mas me deixe explicar).

Para definir quem primeiro publicou HQs no nosso país vai depender do que cada um considera ser Histórias em Quadrinhos... Nos tempos do Império, na segunda metade do século 17, o que se via nas ruas eram jornais e semanários. Numa época anterior ao rádio, líder absoluto em informação e entretenimento no século 18, a grande forma de divulgação de notícias e divertimento eram os jornais e publicações impressas que germinavam (e muitas vezes faliam) rapidamente pelas ruas brasileiras (em especial na capital do império, Rio de Janeiro, mas em todo o território brasileiro também). Inspiradas nos moldes europeus, já que os EUA ainda não tinham a banca para se imporem como líderes culturais do mundo livre, essas publicações invariavelmente tinham um “mascote”, uma figura que apresentava o material ou anunciava um fato ou até mesmo servia para criticar ou polemizar a vida ou os costumes da época em forma de charge ou em diálogo “direto” com o leitor.

Um dos pioneiros era o "Doutor Semana" na revista: "Semana Illustrada", onde o personagem tinha um cabeção (costume de alguns caricaturistas na época) e se tratava de um fidalgo a caráter com seu servo/escravo, o “moleque”... A figura aparecia na revista, criada em dezembro de 1860 dentro do esquema comum na época para publicações jornalísticas de humor e notícias, poucas páginas, algumas dedicadas somente aos textos e outras aos desenhos, pois a imprensa não tinha tecnologia para mesclar os dois. O texto nas figuras também era “desenhado” no trabalho final. Foi criado pelo imigrante alemão Henrique Fleuss e teve em suas edições escritores do nível de Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Quintino Bocaiúva. Mas fica a questão... Poderia ser a figura do Dr. Semana a primeira publicação em quadrinhos no Brasil? Temos com certeza alguns elementos de HQs no personagem, mesmo não estando o texto dentro de “balões” (fato que os norte americanos estabelecem como condição básica em HQ para dar legitimidade à sua alegação de que "Yellow Kid" seria a primeira criação do gênero no mundo, mas veremos isso mais a frente). Para mim não parece ser um personagem em quadrinhos por si, mas algo mais próximo da charge ou cartum, por alguns detalhes, inclusive pela falta de ação sequencial (o personagem está estático em uma cena ou desenho único, no máximo dois a três desenhos pra dar andamento a um questionamento). Não me parece que se trataria de uma HQ com todos os elementos que a caracterizariam, mas caso seja o entendimento de se considerar esse trabalho como uma HQ, então teríamos não o Dr. Semana, apesar de toda a inovação gráfica do Fleuss no periódico, mas o trabalho semelhante feito no jornal o "Maribondo" em Pernambuco em 1822 como pioneiro.

Figura símbolo do jornal Maribondo.

Considerado o berço da caricatura no Brasil em 1831 por ter publicado o primeiro trabalho do gênero, o Maribondo poderia ser também o lar editorial da primeira HQ, ou personagem de HQ, com seu símbolo do homem atacado pelas “ferroadas” (ou no caso críticas do jornal...)? Alguns diriam que talvez fosse o caso. Mas se chegarem a conclusão de que tal desenho não tinha “vida” para ser considerado uma arte sequencial, sendo apenas um símbolo do produto, voltaríamos ao Dr. Semana, que tem uma personalidade e perfil opinativo mais definido, ou ficaríamos com algum dos  protótipos posteriores ao homem do Maribondo, apesar de ter sido o “Semana” o mais longevo e conhecido dos “mascotes” desse tipo de publicação, e assim, mais lógico de figurar como berço da historiografia em quadrinhos nacional, se fôssemos pegar uma mascote em forma de charge para esse fim... Mas como já me adiantei, não parece ser exatamente esse o caso. Não dá para considerar especificamente essa como a primeira HQ publicada no Brasil, mas algo mais dentro da área do início das charges.

Vamos então mudar o foco de nossa pesquisa para Ângelo Agostini e a celeuma com o "Yellow Kid" americano. Os EUA estabelecem como marco inicial das HQs o chamado "garoto amarelo" (ou "Menino Amarelo") criado pelo Outcault em 1894 na tira de jornal Hogan´s Alley (uma HQ que nasceu das primeiras charges sociais dos jornais ianques). 

Um dos pontos dos pesquisadores norte americanos ao defender o fato do “garoto amarelo” ser a primeira HQ conhecida é o fato de utilizar balões para conter as falas do personagem, recurso até então inédito e que se tornou marca das HQs depois disso. Sejamos francos, no início não eram balões, mas dizeres dentro da camisa do personagem, e de qualquer forma, uma alteração ao estilo “texto abaixo da figura” utilizado até então.

Yellow Kid e seu camisão – a gênese dos balões nas Hqs.

Ao se pesquisar a vida do Agostini, imigrante italiano, exímio desenhista e caricaturista que contribuiu e criou vários expedientes jornalísticos de humor durante sua carreira no Brasil, nos deparamos com dois expoentes de sua obra que são consideradas pelos pesquisadores como HQs. Agostini foi um dos eminentes cartunistas da fase do Brasil Império e utilizava suas publicações e caricaturas para defender causas populares, questionar o império e criticar, sobretudo, a escravidão no Brasil. Em 1864 ele criou para o jornal "Diabo Coxo", que estreava em São Paulo, um “mascote/personagem” que, a exemplo do Semana Illustrada, apresentava a publicação dialogando com o leitor e com personagens variados em suas charges... O Diabo Coxo do título, um ser maquiavélico, uma “disforme criatura” que “não queria mal a ninguém” mas utilizava de seus expedientes “diabólicos” para criticar e questionar a sociedade imperial nas páginas do periódico. Exatamente nos mesmos moldes do Dr. Semana.

Assim, como no caso do Dr. Semana, não poderíamos nos utilizar do expediente de ser o Diabo Coxo um personagem de HQ. Pelo menos não sem considerarmos o próprio Dr. Semana como um antecessor, certo? Bem, talvez não, mas vamos por partes.  O primeiro dos dois expedientes que aparecem na obra do Agostini como HQs é “As Aventuras de Nhô Quim – impressões de uma viagem à corte” criada em 1869 no semanário em que o próprio Agostini era um dos sócios, já radicado no Rio de Janeiro, a “Vida Fluminense”. Nessa história ele mostra de forma bem humorada as desventuras do protagonista, filho de um fazendeiro do interior e sua desastrosa viagem à capital imperial. Um folhetim seriado em que cada capítulo vai desvendando os problemas do desafortunado Quim. 

Apesar do formato de texto “sem balões” comum na época, à mim não resta dúvidas de se tratar de uma HQ anterior ao Yellow Kid de 1894. Afinal, se formos considerar somente texto em balões como indicativo de HQ não poderíamos incluir a obra prima de Harold Foster: O "Príncipe Valente", com seu texto na base dos desenhos como uma história em quadrinhos, por exemplo. E o que dizer das obras que não utilizam qualquer texto? Como algumas iniciativas de grandes editoras de super heróis como a Marvel em um número do seu “Hawkeye” do Matt Fraction e David Aja ou mesmo do Maurício de Sousa quando usa suas histórias em que existem somente desenhos no “historinhas sem palavras”?

            Nhô Quim – não se trata de HQ para o conceito de alguns pesquisadores norte americanos.

Portanto, teríamos no Nhô Quim a primeira história em quadrinhos publicada no Brasil, tornando a editora da Vida Fluminense na primeira editora de HQs por aqui? Antes de responder à essa pergunta, vamos fazer uma rápida análise sobre a outra obra do Agostini, publicada no seu semanário posterior, a Revista Illustrada (com dois “l” como se grafava na época), temos sua “segunda” (?) HQ. As aventuras de Zé Caipora, a exemplo do Nhô Quim, que com suas interrupções e troca de veículos nunca foi finalizada, foi iniciada em 1883, e apesar de começar num tom pastelão humorístico como sua antecessora, logo ela toma ares de seriedade e se torna a primeira HQ de aventuras no Brasil (neste caso não parece haver dúvidas já que todas as anteriores se tratam sempre de quadrinhos de humor). E existem poucas, ou nenhuma, de acordo com alguns, iniciativas de HQs puramente de aventuras anteriormente no mundo. Talvez a única exceção seja Obidiah Oldbuck, versão em língua inglesa de 1843 da HQ “Les Amours de Mr. Vieux Bois” por sua vez de 1837, mas, mais uma vez, discordo do viés de aventura nessa obra que, para mim, é puramente humorística ou, no máximo, uma comédia romântica com as desventuras de Oldbuck (Vieux Bois) para conquistar o amor de sua donzela. Seria como pegar a obra de Cervantes, Don Quixote, retirar todas as ilusões do protagonista e considerar que seria um folhetim de aventuras de um verdadeiro cavaleiro no lugar de uma sátira sobre o comportamento do desvairado personagem e seu escudeiro Sancho Pança. Ou seja, até prova em contrário, podemos considerar o Agostini como o criador da primeira HQ de aventuras do mundo (com ênfase na distinção de HQ de aventuras).

Obidiah Oldbuck  (Vieux Bois) – nada muito aventuresco.

Quando foi “descoberto” esse material do Agostini e ao se comparar as datas com Yellow Kid houve uma febre de alguns pesquisadores da história das HQs no Brasil ao colocar nosso país como o berço da chamada Nona Arte e tornando Agostini como o criador da primeira HQ do mundo... Ufanístico talvez... Mas não exatamente verdadeiro. Se considerarmos que Nhô Quim é uma HQ (nesse ponto eu concordo) e anterior à Yellow Kid (o que eu também concordo) temos que considerar se Agostini foi o primeiro a fazer esse tipo de material com essas características a nível mundial, e nesse caso, a resposta é... Não. O mesmo tipo de material humorístico em forma de HQ que vemos em Nhô Quim já fora criado na Europa, o próprio “Mousier Vieux Bois” (citado acima) teria a primazia mundial em formato HQ tendo sido criada em 1837 pelo suíço Rodolphe Topffer (sua versão traduzida para o  inglês em 1843 – Obidiah Oldbuck - teria sido a primeira Comic ou Gibi publicado fora do formato periódico de todos os tempos), seguido de “Mousier Reac”, em 1848 de autoria do francês Nadar, cujo nome real era Gaspard-Félix Tournachom. Em seguida, temos a dupla “Max und Moritz” no início de 1865 com autoria do alemão Wilhlem Busch (tendo sido publicado aqui no Brasil com o nome de “Aventuras de Juca e Chico” em 1915, com tradução do poeta Olavo Bilac).

Max e Moritz ou Juca e Chico em terras brasikleiras...

Depois, teríamos Ally Sloper, HQ inglesa de Charles H. Roos e sua esposa Marie Duval em 1867 e em seguida Nhô Quim de 1869 se colocando como a quinta história em quadrinhos do mundo, depois de algumas iniciativas da Europa, mas bem antes dos norte-americanos. Assim podemos responder a pergunta da primeira história em quadrinhos a ser publicada no Brasil ser “Nhô Quim.”.. Mas tem um pequeno porém... Ou grande, para efeito de nossa análise. Quando desconsiderei o personagem "Diabo Coxo" como HQ por ser simplesmente um mascote do jornal dentro da categoria de cartum ou charge, deixei de apontar um pequeno detalhe... Antes mesmo de produzir Nhô Quim, Agostini já realizava material em HQ, ele produzia narrativas ilustradas, que nada mais eram do que notícias em formato de histórias em quadrinhos, sendo a primeira delas uma reportagem para o semanário Cabrião, que existiu entre o final do Diabo Coxo e antes da Vida Fluminense, que ilustrou a história de um incêndio no Hotel Heitor em Jundiaí, isso foi no número 41 do jornal em julho de 1867... Então o semanário “o Cabrião” (que também tinha sua mascote – o cabrião do título, na figura de um amolador que andava pelas ruas de São Paulo e que, a exemplo dos outros personagens, apresentava o jornal e suas críticas) foi a primeira editora de HQs no Brasil?

Mais uma vez... Depende do conceito do que seja uma HQ... Se considerarmos o trabalho de Agostini com uma reportagem em forma de “narrativa ilustrada” (no jargão da época) algo que não seja uma HQ, nesse caso, teríamos que desconsiderar todas as HQs que tratam de biografias ou de acontecimentos reais passando a figurá-las como não sendo histórias em quadrinhos, e apenas: “narrativas gráficas de fatos”. Mas, se considerarmos que se trataria sim de uma HQ, essa análise também teria consequências...

Vejamos... O trabalho de narrativas gráficas de Agostini não se iniciou com sua iniciativa em criar uma forma de ilustrar notícias na época em que não se conseguia imprimir fotos nos jornais, mas ainda antes, em 1865, o ítalo-brasileiro se utilizou do personagem/mascote para ilustrar uma história com ares de fábula sobre o cavalo que virou homem, sob o título: “Metamorphoses”, nela ele lança mão do Diabo Coxo e numa narrativa sequencial que começa na figura da capa e se prolonga dentro do periódico mostra os acontecimentos vivenciados por um cavalo ao virar um ser humano, através de seus diálogos com o velho diabo coxo... Produção que inclusive seria anterior à considerada quarta HQ do mundo – a citada acima “Ally Sloper” – o que levaria Agostini para o quarto lugar no ranking dos criadores originais de HQs pelo globo.

Diabo Coxo e o cavalo que virou homem retirado da edição recuperada do periódico Diabo Coxo pela EDUSP .

Bem, a mim não resta dúvidas de se tratar de uma História em Quadrinhos, mesmo ao se utilizar como personagem um mascote de charge... Isso colocaria o Diabo Coxo em “Metamorphose” como a primeira HQ e a editora do “Diabo Coxo” como editora primal de HQs com essa iniciativa de setembro de 1865? Bem, se me derem um pouco mais de paciência eu responderei novamente que... Não exatamente... Considerando essa iniciativa como uma HQ, com uma história contada em forma de arte sequencial e com textos na base das ilustrações teremos que analisar mais um exemplo de trabalho semelhante...

Imagem de “O Namoro”.
           
Mais uma vez, temos uma iniciativa de um estrangeiro radicado no país, dessa feita, Sébastien Auguste Sisson que escreveu e desenhou uma HQ com o nome: “O Namoro”, no ano de 1855 na revista Brasil Illustrado, sobre o andamento de uma “corte” nas ruas do Rio de Janeiro, com direito à escolha do leitor de dois finais diversos para o fim da narrativa. Isso tornaria a editora de Ciro Cardoso de Meneses, F. J. Bethencourt da Silva e Francisco de Paula Meneses, em sua Brasil Illustrado, a primeira a publicar HQs no Brasil. Colocando Sisson no terceiro lugar do pódio de criadores de HQs e relevando Agostini com sua “Metamorphose” de volta ao quinto e “Ally Sloper” a sexta colocação? Sim... SE esse for seu entendimento do que seria uma HQ. Exatamente... Dependendo do que cada um dos que tiveram paciência de me ler até aqui, entender como HQ vai se ter uma reposta distinta de qual seria a editora inicial de quadrinhos em nosso país. Ou seja:

1. Se achar que a criação de uma figura representativa – um símbolo - de um periódico em forma de charge, mesmo sem uma sequência de arte ou mesmo de texto, seja o suficiente para se caracterizar um personagem de HQ, então seria a editora do Maribondo no ano de 1822 sua escolha;
2.  Caso entenda que haja a necessidade de uma história, um fio narrativo e arte sequencial que o ligue, mesmo sem o artifício de balões, com o texto estando na base das figuras, a escolha é “O Namoro” de Sisson no Brasil Illustrado de 1855;
3.  Se o seu entendimento for no sentido de que é necessário um desenvolvimento maior de personalidade no protagonista, mesmo no formato de charge, com um diálogo opinativo e figuras coadjuvantes e recorrentes, ficaria com o Dr. Semana da Semana Illustrada de dezembro de 1860;
4.    Se isso ainda não o convencer pelo fato do trabalho do personagem recorrente Dr. Semana ser considerado charge e por faltar exatamente a arte sequencial, mas ainda exigir um desenvolvimento de profundidade que não se encontra na única obra de Sisson, então o Diabo Coxo de Ângelo Agostini na HQ “Metamorphose”, publicado em setembro de 1865 pode ser seu ponto de início nas HQs no Brasil;
5.     Na hipótese do uso de um personagem/mascote na HQ não te convencer, então mais uma vez sua escolha é Agostini, dessa vez com Nhô Quim, de 1869 na editora da Vida Fluminense;
6.   Se for um entusiasta de histórias um pouco mais sérias e considerar que um personagem cômico seria de “uma arte menor” (sim, já ouvi essa teoria) e não seria um exemplo válido de HQ, mais uma vez pode ficar com uma criação de Agostini na forma de Zé Caipora, criado em 1883 no periódico editado pelo próprio Ângelo na Revista Illustrada;
7.    Se seguir a tese de alguns pesquisadores dos EUA e achar que o uso do balão para ilustrar os diálogos for condição totalmente essencial ao se considerar a validade de uma HQ então sua editora original é a d´O MALHO na Tico-Tico, de 1905, apesar de que o uso de balões na revista só se originou na década de 1930, até então as histórias eram SOMENTE com texto na base das ilustrações, mesmo quando eles adaptavam material estrangeiro, por exemplo, no “Buster Brow” que era redesenhado e virava Chiquinho em terras tupiniquins, eram suprimidos os balões originais e mantido o estilo do texto cursivo embaixo do quadrinho. Era para dar uma impressão maior de seriedade literária na época em que se achava que os balões com seu texto “curto” não o delegava nas HQs;
8.   Por fim, se for um fã exclusivo dos Comics Americanos, que ainda dominam o mercado atualmente, e acreditar que somente o material ¨made in USA¨ de aventura e super-herois mereceria a denominação de HQ (teoria um pouco forçada, mas a escolha fica “ao gosto do freguês”...), fique com Adolfo Aizen e o Suplemento Juvenil de 1934 como início da Nona Arte no Brasil.

Correndo o risco de me estender demais, deixo, apenas para finalizar, a lista dos livros utilizados para essa pesquisa e que são uma leitura muito interessante.

As aventuras de Nhô Quim e Zé Caipora – Atos Eichler Cardoso – Editora do Senado.
Memórias d´o Tico Tico: Juquinha, Giby e Miss Shocking – de J. Carlos editado por Atos Eichler Cardoso – Editora do Senado.
Angelo Agostini – A Imprensa Ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910 - Gilberto Maringoni – Editora Devir.
Diabo Coxo: São Paulo, 1864-1865 – Luiz Gama – EDUSP.
O Tico-Tico 100 Anos – Centenário da Primeira Revista em Quadrinhos do Brasil -  Editora Opera Graphica.
História da Caricatura Brasileira – Luciano Magno – Editora Mauad.

Ally Sloper posição questionada pelo trabalho de Agostini.
Até+

PS: O "Submundo" agradece por mais esta espetacular colaboração especial do César Leal... Reservada pra encerrar o mês de comemoração dos 5 ANOS do blog (e com chave de ouro, diga-se de passagem: Pois certamente trata-se de um trabalho de extensa pesquisa e dedicação por parte do autor: Valeu mesmo)! 

31 comentários:

  1. Mas que texto é esse?Sensacional, espetacular.Uma aula não so sobre quadrinhos no Brasil,mas tambem sobre a historia.Parabens Cesar!
    E parabens a voce tambem xara,seu blog é tao sensacional que inspira os colaboradores a nos presentear com belos textos como esse.
    Abraços!

    Leo Cabral

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    1. Obrigado, na verdade acabei mostrando a ponta do iceberg, ainda existe muito que pode ser elucidado nos primórdios das HQS no Brasil. Até pq a maior parte dos exemplos citados como Dr. Semana ou Agostini se tratam de material de muita pesquisa além de serem exemplos muito populares na época, o personagem de Agostini chegou a ser uma montagem teatral contemporânea a seu período de maior sucesso, em verdade existem muitos exemplos de pequenas publicações dentro do mesmo esquema pelo Brasil fora do eixo da capital imperial, ainda poderemos descobrir outras iniciativas que sejam menos conhecidas.
      Cesar leal

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  2. Muito bom o trabalho de pesquisa César, parabéns e parabéns para Léo por ceder o espaço. Com esses artigos o blog enriquece muito. Sugestão para o próximo artigo: Grandes ilustradores brasileiros. Sou admirador do Oswaldo Storni, o Gustave Doré brasileiro mas quase nada encontro sobre ele. Abraços !

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    1. É curioso que muito de nossos grandes artistas tenham sido ofuscados pelo tempo, a produção de quadrinhos do Brasil sofreu um trauma e falta de reconhecimento que ainda sentimos hoje. Na Argentina por exemplo eles sempre foram muito mais articulados e prósperos nessa área. Existiram épocas em que só se via em bancas personagens americanos em publicações importadas da Espanha e outros países de língua latina por simplesmente venderem pouco em relação ao produto nacional...
      Cesar Leal

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  3. Vi varias revistas Tico Tico quando trabalhava em um sebo especializado em quadrinos.Existiam umas historias escritas senao me engano e alguns quadrinhos diferentes.E ainda existiam uns personagens que se saissem agora,iriam ser chamados de racistas para cima,discriminacao com as minorias,etc etc..
    Fernando

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    1. Engraçado vc mencionar isso, estou lendo um livro argentino La Historieta Salvaje que trata exatamente sobre esse assunto. Como o humor era simplesmente selvagem (hoje chamado politicamente incorreto) fazendo piada com qualquer coisa e assunto sem se importar ou reconhecer limites. Existiram alguma s histórias em quadrinhos simplesmente impiedosas em prol de um humor questionável no início do século 20. E aqui tb tinhámos esse mesmo estilo, material que hoje não veria a "tinta de impressão"
      Cesar Leal

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  4. olá Leo!
    Simplesmente magnifico!
    Parabens à vc e ao Cesar por este post, um trabalho, uma aula melhor dizendo, para amantes da nona arte.

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  5. Que matéria foda!
    Caraca esse blogue eh do meu mano Leorrad???
    Aki eh o Rod e meu blogue é do assunto acima, o Dr. Semana teve uma HQ sim, chama "Passeio pela Cidade" e teve outras, depois eu mostro no meu blogue.
    http://quadrosaovivo.blogspot.com.br/
    Abxx p/ mano Leo!

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  6. Uau, imagino que trabalhão deu essa pesquisa, hein Cesar Leal? Parabéns pelo empenho dessa tarefa! Eu, por minha vez, considero os dois: "As aventuras de Nhô-Quim" e "Zé Caipora", os primeiros quadrinhos brasileiros e MUNDIAIS. Eu comprei o livro da editora Senado. E recomendo a todos que comprem, é (relativamente) barato, custa R$ 30,00 com frete grátis, e vale a pena demais. Meu, não consigo entender, principalmente o segundo (Zé Caipora) é um fantástico livro de aventura, com muita ação e coragem por parte do herói da história, essa é sem dúvida nenhuma o protótipo perfeito dos heróis e super-heróis que tanto gostamos hoje em dia.
    Isso é e deveria sim ser considerado mundialmente como a HQ pioneira, e o Angelo Agostini deveria ser lembrado mundialmente como um homem criativo demais.

    Abraços a todos os amigos do Submundo HQ.

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    1. Por um tempo eu tb achei que Agostini tinha a primazia mundial nas HQS, mas o material francês realmente foi anterior, mas certamente quadrinho de aventura foi iniciado por aqui. Não achei NADA absolutamente que antecedesse Zé Caipora no quesito de HQs de aventura em que o humor fosse um elemento mas não o centro da narrativa. Até me provarem com algum material fático acredito que as hQs de aventuras se iniciaram com nosso indiana Jones zé caipora...
      Cesar Leal

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  7. Fala, Léo!
    Para brindar uma data festiva deste blog, absolutamente relevante, fundamental e indispensável, fomos nós, os leitores, os presenteados com esta "Aula Magna" sobre o tema!
    Meu reconhecimento e admiração ao "missivista" César Leal, que utilizou com categoria o espaço do blog, neste espetacular (nada menos que isso) trabalho!
    E Léo, como já te escrevi anteriormente, você é um catalisador de cultura, com seu trabalho e as participações/contribuições dos parceiros!
    Fechou o mês com chave de ouro...

    abs.

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  8. "E parabens a voce tambem xara,seu blog é tao sensacional que inspira os colaboradores a nos presentear com belos textos como esse."


    E aí, Leo Cabral... blz?

    Brigadão mesmo por ter curtido esta matéria: Eu tbm achei esta postagem tão espetacular q o César me mandou esse texto há meses atrás e preferi reservar ela justamente pra uma ocasião mais especial pro blog: E nada melhor pra isso do q a comemoração de 5 ANOS do "Submundo" (agora devidamente festejada, rs)!

    Imagina só q chique: não é toda matéria q pode se dar ao luxo de trazer referências bibliográficas no final do texto, hehe!

    Abs!

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  9. "Sugestão para o próximo artigo: Grandes ilustradores brasileiros. Sou admirador do Oswaldo Storni, o Gustave Doré brasileiro mas quase nada encontro sobre ele."


    E aí, Gustavo... blz?

    Eu sempre mantive o "Submundo" à disposição de colaboradores q tivessem textos e ideias realmente boas pra compartilhar aqui e o resultado sempre foi bastante satisfatório pra todos (sem falar q o blog ganha mais diversidade com iniciativas assim): Q venham mais colaborações especiais por aqui (serão sempre bem-vindas)!

    Obrigado tbm pela sugestão sobre o tema pra um próximo artigo: Sobre ilustradores brasileiros... Com certeza, essa postagem poderia render mto por aqui (se o César - ou outro colaborador - se habilitar, fica aí a dica)! Valeu mesmo!

    Abs!

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  10. "E ainda existiam uns personagens que se saissem agora,iriam ser chamados de racistas para cima,discriminacao com as minorias,etc etc.."


    E aí, Fernando... blz?

    Esse seria outro tema interessantíssimo pra ser debatido aqui no blog uma hora dessas: Os conceitos (ou preconceitos) sócio-culturais de fases mais clássicas dos quadrinhos - Onde o racismo se fazia presente de forma bastante "natural" (e não só nas HQs como tbm em todo o resto da mídia - até não mto tempo atrás)!

    Um dos exemplos q vc deve ter visto aí era o "Amigo da Onça" (q apresentava mtas piadas de cunho racista). E nem precisamos retroceder tanto assim no tempo, pois os gibis dos "Trapalhões" (da Bloch) nos anos 70 e 80 já não poderiam mais ser publicados hj em dia nos mesmos moldes em q foram concebidos! Mta coisa q passava na época hj é considerada CRIME perante a LEI!

    Abs!

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  11. "Parabens à vc e ao Cesar por este post, um trabalho, uma aula melhor dizendo, para amantes da nona arte."


    E aí, Marcelo... blz?

    Valeu mesmo, mas os méritos são todos do César nesse caso... q fez um excelente trabalho de pesquisa! Da minha parte, só tive a honra de apreciar e poder publicar esta postagem aqui no blog, rs!

    Abs!

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  12. "Caraca esse blogue eh do meu mano Leorrad???"


    E aí, rod... blz?

    Grande honra ter o meu brother "BLENQ" de volta na área, rs... qto tempo, hein?

    E parabéns pelo trabalho no seu blog tbm: Sempre um deleite sobre HQs nacionais!

    Abs!

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  13. "Eu, por minha vez, considero os dois: "As aventuras de Nhô-Quim" e "Zé Caipora", os primeiros quadrinhos brasileiros e MUNDIAIS."


    Oi, Celso... Tdo bem?

    Questões interessantíssimas mesmo as levantadas nessa postagem, hein? Acho q tudo se resume em estabelecer os critérios necessários ao q se considera de fato uma HQ (e já vimos aí acima o qto pode ser complexa a definição dessas origens dos quadrinhos - nacionais e mundiais)!

    Eu tbm anotei alguns desses livros indicados no final da matéria... pra me inteirar melhor de todos esses detalhes de pesquisa (tbm um dia ainda quero comprar aquele livro do "Tico-Tico" q vinha com um fac-símile da 1º edição)!

    Abs!

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  14. "Fechou o mês com chave de ouro..."


    E aí, Victor... blz?

    Ficou perfeito mesmo ter fechado o mês de comemoração dos 5 ANOS do "Submundo" com uma matéria mais q especial q nem essa, hein? Eu tava guardando ela há meses esperando o melhor momento pra postar aqui e tbm acho q valeu a espera (um trabalho de pesquisa de alto nível por parte do Cesar)!

    Eu tô sempre buscando novos talentos (colaboradores) e procurando trazer o máximo de variedade e diversidade nas matérias aqui do blog: Pra não ficar só no lugar-comum de notícias e lançamentos recentes... Acho importante aproveitar melhor este espaço com várias ramificações dos quadrinhos (curiosidades, pesquisas históricas, fotos de miniaturas e demais itens colecionáveis, etc)! Valeu mesmo por estar curtindo essas iniciativas aqui do blog!

    Abs!

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  15. E aí, Leo, tudo bem? Matéria pra lá de interessante. Ao lê-lo bate uma saudade de uma época em que não vivi. É uma sensação estranha! Parece até que comprava e colecionava essas revistas nos anos em que foram lançadas.

    Acho que ele (o texto), por apresentar um tema fascinante, tornou-se muito imersivo, envolvente, hipnótico, e, por ser tão especial, merecia ser lançado impresso.

    Léo, esse texto fechou com louvores um quinquênio de ouro. Do surgimento do Submundo HQ até hoje. Parabéns ao César Leal.

    Até a próxima postagem, Leo. Saúde e paz a você e a todos colegas do Submundo HQ.

    Michel

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    1. Obrigado, mas tenho que agradecer muito ao Leo pela oportunidade, na verdade até pelo incentivo para ter começado a pesquisa.

      Cesar leal

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  16. "Matéria pra lá de interessante. Ao lê-lo bate uma saudade de uma época em que não vivi. É uma sensação estranha!"


    E aí, Michel... blz?

    É mto estranho mesmo, pois tbm não vivi essa época: Porém, cada vez q leio gibis (mesmo republicações) de tempos tão remotos... Fico com uma sensação de q existe uma certa familiaridade com esses materiais do século retrasado! Mtas dessas antigas HQs reproduzem tão bem e de forma tão intensa a época em q foram concebidas q o leitor dificilmente escapa de mergulhar de corpo e alma nessa ambientação toda (cultura, costumes, figurinos dos personagens, hábitos, reconstituição de época, etc)!

    Acho q esta foi uma matéria mto bem escolhida pra fechar este 1º ciclo de 5 ANOS do "Submundo"... Já q este blog sempre priorizou as notícias e lançamentos do mercado nacional, nada melhor do q retroceder ao início de tudo e revisitarmos as origens dos quadrinhos em geral!

    Mesmo assim, o mundo gira e as novidades não param... Amanhã à noite eu retorno com novas atualizações no blog (e será mais uma saraivada de notícias diversas, rs)!

    Abs!

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  17. Uma coisa importante, o Töppfer produziu bem mais do que uma HQ. Em vida (ele morreu em 1846) ele publicou sete:
    https://fr.wikipedia.org/wiki/Rodolphe_T%C3%B6pffer#Bandes_dessin.C3.A9es

    Elas eram publicadas em livros de formato horizontal e capa dura. Tenho em meu acervo pelo menos uma publicação original (M. Crépin, 1837) e algumas republicações posteriores (meados do século XIX) de outras três. Todas de humor, até onde eu posso dizer. O escritor Goethe, que eu considero o primeiro fã de quadrinhos, muito apreciava os trabalhos de Töppfer.

    Uma versão digital de outro trabalho dele:
    https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Toepffer_Histoire_Albert.pdf

    Cham, pseudônimo do francês Amédée de Noé, por sua vez produziu diversas HQs, alegadamente inspiradas e até contendo plágios da obra de Töppfer, entre 1839 e 1842:
    https://fr.wikipedia.org/wiki/Cham_(dessinateur)#Albums_de_bande_dessin.C3.A9e

    Também eram publicadas como livros. Não tenho nenhuma para dizer o formato.

    Enquanto isso, no Japão, Hokusai criava o seu "Mangá" (Mangá é o nome da obra em si, foi ele quem inventou o termo!). Maior parte eram ilustrações, mas há exemplos de narrativa sequencial, como este:
    https://en.wikipedia.org/wiki/File:Manga_Hokusai.jpg

    Portanto ainda houve bastante produção pelo mundo antes de se chegar ao Agostini.

    Reparem que os américanos atribuem o títullo de primeira HQ ao Yellow Kid não por esse "falar" pela sua camisa e sim por conta DESTA página específica:
    http://xroads.virginia.edu/~ma04/wood/ykid/images/centennial/yk_phonograph.jpg

    Ela contém de fato uma narrativa sequencial com balões. Indiscutivelmente uma HQ (ao contrario do resto do Yellow Kid, que está mais para charge ou mesmo ilustração), mas eu tenho a impressão de que já vi narrativas similares em revistas britânicas como a Punch, bem anteriores. Vejam este exemplo de 1853 (que, bem entendido, contém balões mas NÃO É uma narrativa, é uma charge):
    http://cdn.c.photoshelter.com/img-get/I0000pHTiEWyswhM/s/900/720/John-Leech-Cartoons-Punch-1853-2-2-ALM.jpg

    Ou seja, nem narrativa sequencial nem balões eram novidade quando essa página de Yellow Kid saiu. Terá sido ela a primeira a combinar ambos? Não sei, penso que já vi exemplos anteriores nas revistas britânicas do século XIX, mas não conheço nenhum de cor (os especialistas britânicos certamente conhecem!). Narrativa sequencial é essencial para se ter uma HQ? Eu afirmo que sim, pois se não é uma narrativa sequencial, é uma forma de arte diferente (charge, ilustração, o que preferir). Balões são essenciais para se ter uma HQ? Definitivamente NÃO!

    Opiniões?

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    1. Com certeza que não... Caso contrário estaríamos cortando uma série de produções que são verdadeiros tesouros da Nona Arte como o trabalho do Príncipe Valente e as primeiras histórias de Tarzan por exemplo (ambas do magistral Harold Foster) e muito material que são até contemporâneos mas não usam balões como apontei no texto... Como vc disse, mesmo que Yellow KId tenha sido pioneiro em mesclar balões e arte sequencial (apesar de tb estar inclinado em acreditar que nem serie esse o caso como vc apontou com relação ao material britânico)não se poderia discutir que as HQs somente teriam, nascido nessa junção desses elementos... Inclusive pelo fato do berço cultural e de inovação do início do século 19 ser a Europa, notadamente a Suíça e França, e não os EUA. Mas seria muito esperar que os norte americanos não quisessem angrariar a "paternidade" do produto. Os EUA talvez sejam os pioneiros em comercialização de HQs, transformando o produto num comércio altamente lucrativo e de propaganda em cima das HQs, o que gerou no boom dos super heróis. Mas criadores do formato com certeza se trata de um devaneio.
      CEsar Leal

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    2. Na verdade a primeira grnde expansão cultural dos quadrinhos foi devido aos Syndicates américanos, que distribuíam as tiras de jornal dos EUA para o mundo inteiro. Isso foi ainda no período entreguerras!

      ESSE sistema foi definitivamente uma invenção americana e é singularmente responsável pela popularização dos quadrinhos no mundo (na altura ainda se publicavam poucos livros e revistas ilustradas, mas jornal tinha em todo lado e todo mundo lia). Não por acaso todas as "escolas" de quadrinhos do mundo foram influenciadas pelo material de tiras americano desse período, até países que já tinham suas próprias HQs, como a França, a Inglaterra e até mesmo o Japão!

      Portanto os americanos definitivamente não invntaram as HQs, mas foram os principais responsáveis pela sua popularização.

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  18. Colegas! Não nos esqueçamos do magnífico mangá GON. Onde não há balões de fala mas, com toda certeza, é arte sequencial.

    Esse mangá, na minha opinião, é um dos mais nítidos exemplos que demonstram que uma obra de arte produzida no formato de quadrinhos não precisa necessariamente de balões de fala.

    Aliás, GON, é uma história em quadrinhos de primeira grandeza; recomendadíssimo. Poderia ser republicada no Brasil.

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  19. "La Historieta Salvaje que trata exatamente sobre esse assunto. Como o humor era simplesmente selvagem (hoje chamado politicamente incorreto) fazendo piada com qualquer coisa e assunto sem se importar ou reconhecer limites."


    E aí, Cesar... blz?

    Esse livro deve ser mto interessante mesmo, hein? Eu gosto de estudar as HQs sob essa ótica mais voltada aos costumes de época e à questão sócio-cultural dentro do contexto de análise de um determinado período da nossa História!

    O "humor" (entre aspas ou não) continua sendo um tema atualíssimo pra esse tipo de debate... Diante das inúmeras polêmicas de humoristas q se envolveram (e ainda continuam se envolvendo) em questões controversas sobre racismo, homofobia, machismo, política, e religião (nem preciso citar mtos exemplos, pois eles vão desde o programa "Pânico" até os cartuns na Europa)! O humor hj continua mais ofensivo do q há mais de meio-século atrás: A diferença é q agora o preconceito passou a ser considerado CRIME perante a LEI (e passível de processo)!

    Abs!

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  20. "Portanto os americanos definitivamente não invntaram as HQs, mas foram os principais responsáveis pela sua popularização."


    A ideia das tiras de jornal foi uma sacada brilhante mesmo pra popularização das HQs... Pois os jornais eram a principal mídia informativa naquele período (antes da TV e nos primórdios do rádio)!

    Uma pena q essa tradição foi se perdendo com o passar dos anos... e hj as tiras de jornal já não tem mais representatividade (alguns periódicos só as publicam ainda como "refugo" e sem a menor boa-vontade - o jornal q eu assino já nem traz mais tiras, apenas uma charge na 2º pág e era isso)!

    É mérito dos EUA ter popularizado as HQs através dos jornais... Mas eles não deviam tomar pra si a autoria da criação das HQs em si (aí já é forçar demais a barra por tudo q se sabe)!

    Abs!

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    1. Ironicamente, abandonando as tiras os jornais perdem um publico fiel.

      Quando era criança eu sempre dizia que quando fosse adulto e ganhasse dinheiro ia compprar O Globo, que na época publicava uma página inteira (daquelas grandes) CHEIA de tirinhas, muitas delas de aventura. Quando eu fiquei adulto, o que aconteceu? O Globo acabou com as tirinhas de aventura e reduziu muito a sua página de tiras. Adivinha quem NÃO virou assinante do jornal...

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    2. Foi a mesma coisa aqui... Eu ainda peguei aquele tempo em q o caderno dominical trazia a parte de tiras e quadrinhos coloridas (enquanto nos dias úteis da semana as tiras eram em P&B)!

      De uns anos pra cá, todos os jornais daqui foram reduzindo o espaço pra isso: A pág colorida do domingo foi a 1º a rodar ainda nos anos 80 e depois foram diminuindo as demais tiras (até serem completamente extintas da maioria dos periódicos)!

      Abs!

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    3. O Globo tinha um suplemento inteiro no domingo, o Globinho. Era a menina dos olhos do Dr. Roberto!

      Que nem tinha esfriado quando acabaram com ele...

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  21. "Aliás, GON, é uma história em quadrinhos de primeira grandeza; recomendadíssimo. Poderia ser republicada no Brasil."


    E aí, Michel... blz?

    Vc tem razão: A arte de "Gon" é realmente mto bonita e a narrativa sem texto é mto aprazível de se acompanhar. Já vi umas ed. e gostei mto do material (q podia ser republicado sim)!

    Eu lembro do "Gon" num jogo de luta q eu tinha no "Playstation" (o "Tekken 3" - q não era dos meus preferidos mas fazia mto sucesso nos anos 90)!

    Abs!

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